neguinho adotou uma cã caolha (8)

@3 months ago with 7 note and 9 play
@1 year ago with 3 notes
#joca #usando um cone de trânsito de chapéu 
havia acabado de tocar violão por quinze minutos na praça das fontes, onde, com alguma distância, me faziam companhia dois casais (um deles fazendo piquenique) e um senhor lendo um livro. começou a trovejar, o que ignorei por um tempo, mas logo então a chuviscar  (de maneira bem gradual, nada a reclamar). voltei para o carro e passeei pela rua do parque, com graus de chuva radicalmente diferentes em cada conjunção de deslocamento tempo-espaço.



agora era segunda-feira, tipo 14h40. na região do estacionamento seis – outro lado da rua do gibão, onde ficava o saudoso tribal park e onde agora rola uma arquibancada sem propósito e, mais a frente, um grande parquinho de areia abstrato – parei o carro para estudar violão. no estacionamento, logo à minha frente, estacionou também outro carro, um kia soul preto, cujo dono se demorou um pouco para sair e, tendo feito, ficou andando de um lado para o outro, olhando para o chão como alguém (eu, por exemplo, às vezes) que quer parecer com algum propósito quando não há. lá também outros poucos carros, todos estranhamente juntos em vagas imediatamente vizinhas num estacionamento tão amplo e sem nenhum ponto de atividade identificável.



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kia soul, meu carro, outros carros



violão em uma mão e skate na outra (de certa forma pelo saudosismo do antigo skate park, mas sobretudo por se tratar de uma arma branca poderosa (na minha cabeça, imbatível senão por armas de fogo)), andei um pouco pela região procurando algum lugar agradável e com cobertura suficiente para proteger o violão da chuva minúscula em intensidade e densidade e dimensão das gotas. escolhi um banquinho de quatro banquinhos em volta de uma mesinha, perto de uma churrasqueira, sob um dossel de pinheiros (que, por ter folhas quase não-folhas, sequer servia ao propósito de cobertura, mas ao menos era bem bonito). retirei o violão do estojo, que serviu como apoio de pé, e comecei a tocar uma música inacabada minha antes de partir para coisas sérias.



antes dela terminar (o que significa menos de dois minutos depois), o rapaz do estacionamento, de vestimentas e fisionomia que não me comunicavam absolutamente nada, veio em minha direção com o distanciamento mínimo para que houvesse a possibilidade dele não estar vindo a mim. ele passa minha mesa e se senta em outra (em cima da mesa) no mesmo complexo que eu, alguns metros de distância, de novo o mínimo necessário para não ser conclusivo que eu tenho algo a ver com qualquer coisa. no meu raio de visão (enorme, fora a diferença da miopia dos meus olhos e da correção dos óculos), ninguém mais à vista, e um sem-fim de possibilidades de assentos (inclusive outros complexos de mesa e churrasqueira) para quem quer só sentar e ficar parado, como ele fazia.



antes de tomar qualquer conclusão, considerei que era início de tarde numa segunda-feira, e o que haveria de ser aquele lugar recluso senão um ponto de encontro de gente maluca e / ou em busca de experiências espirituais edificantes? eu sei uma coisa ou duas sobre parecer completamente inexplicável para as outras pessoas em algumas situações, e daí presumi que, até segunda ordem, ele estava lá para, timidamente, ouvir minha música, que realmente soava bonita naquele contexto.



essa música não tem fim, então eu repetia sua execução inteira, já que estava finalmente me soando bem e eu poderia terminá-la, talvez (este rascunho vem se engessando tem quase um ano). antes dela chegar ao seu fim novamente, vejo, de longe, outro homem vindo na minha (nossa) direção geral, também meio errático, parando para analisar rapidamente coisas improváveis (árvore, estacionamento, bebedouro da caesb). já considerando alguma possibilidade de emboscada improvável, de uma ação conjunta criminosa e brutal dos dois homens, minha primeira reação foi emendar a minha música, que é suave e bonitinha, em acordes extremamente dissonantes e gestos bruscos. rasgueados repentinos em acordes cheios de nonas menores, cromatismos com eles, puxadas e crescendos acompanhados de movimentos corporais expressivos que eu esperava, de alguma forma, que me fizessem pagar de maluco e fizessem os dois criminosos, se fossem, pensarem duas vezes antes de se meterem comigo. uma solução muito questionável ao dilema de não parecer paranóico e desconfiado demais, ofendendo principalmente o primeiro cara (quem pára o carro em um lugar, caminha um tanto razoável e só toca por uns sete minutos e vaza?) e, ao mesmo tempo, fazer algo minimamente a respeito sobre a possibilidade de sofrer um ataque brutal. falhando terrivelmente no segundo quesito, eu concedo, mas o primeiro é de uma importância desproporcional para mim, como todos que me conhecem hão de saber. não sei se faria diferente.



conforme o segundo elemento, também indecifrável visualmente (para mim), se aproximava, e minha música caminhava rapidamente para vanguardas ainda mais recentes, a chuva deu uma leve engrossada. talvez imperceptível para quem não estivesse com um objeto de madeira que não pudesse tomar chuva, mas eu estava com dois e tinha boa razão para querer sair de lá. legitimado, sem trair nada. então, tentando não parecer apressado, guardei o violão no estojo e carreguei-o com a mão esquerda para otimizar um possível manejo violento do skate com a direita (com um rodopio, como uma espada? como um aríete? eu saberia quando a hora chegasse). fiz um barulho, algo como um pigarro ou um grunhido, que em análise posterior vejo que era para mostrar que eu estava no comando sonoro do lugar, e andei, sem desviar eventuais encontros oculares com o segundo rapaz quando nos semi-cruzamos. cheguei aliviado no carro, vendo que aquele aglomerado de carros todos contavam com seus motoristas dentro deles, quase todos de camisa social e gravata, sozinhos, sem interagir um com o outro. tudo muito estranho.



saindo do estacionamento, pude ver de longe o rapaz que sentava na mesa. ele estava agora acompanhado por outro, que, por conta da minha ausência de atenção e memória visual, não sei dizer se é o mesmo que vinha em nossa direção. na hora imaginei que havia, então, feito bem em sair de lá, mas depois percebi que, por ter olhado apenas rapidamente, como uma fotografia, a interação dos dois poderia ser de qualquer natureza. algo tranquilo como uma venda de drogas, um pedido de cigarros, um maluco sociável puxando papo. ou ainda, mais ominosamente, uma violência a qual alguém armado com um skate poderia, estando ao redor, evitar. o rapaz tinha um carro bem mais caro que o meu, e presumidamente mais a perder materialmente. ou então dois amigos que marcaram um passeio no parque, como eu sem dúvida adoraria fazer com alguém. se eu pudesse entender o que aconteceu de fato, quem era cada um dos dois (possivelmente três) personagens, de onde eles vinham e por quê, e o que pensavam da vida de forma geral, e que diabos aquela galera vestida para trabalhar fazia lá, talvez eu pudesse extrair um significado daquilo tudo, mas não faço idéia e nem mesmo o que eu fazia lá era tão justificado assim. e então, todos os elementos em aberto, a experiência toda abstrata e onírica que nem aquele parquinho raramente ocupado. um vortex de surrealismo dos muitos que se encontra em brasília com muito pouco esforço. de lá, fui para a aliança francesa pela primeira vez, onde encontrei um amigo, li na biblioteca por uma hora, pessoas falaram francês comigo, vi uma cena de sexo não-explícito na televisão da recepção e informei a um rapaz ignorado pela recepcionista onde era a lanchonete.
@1 year ago with 4 notes

(Source: fuckyeahdementia)

@1 year ago with 1574 notes

notas sobre ter um cachorro

(título alternativo: amo/sou toby)

foi em 1999, ano cuja menção é eternamente comprometida pela lembrança da música homônima do capital inicial, o que é logo compensado pelas lembranças de reportagens sobre o bug do milênio e pela época boa da mtv e pela libertadores do palmeiras e o casamento bêbado de ross&rachel, que finalmente minha mãe cedeu aos nossos pedidos provavelmente irritantes de ter um cachorro. ceder aos pedidos de crianças parece algo pouco sábio: mesmo hoje eu sequer sei exatamente por que queria um cachorro e tenho certeza que não tinha idéia do nível de responsabilidade necessário e o compromisso a longo prazo, a despeito de avisos múltiplos. lembro de, no carro do meu pai, antes de buscar o cachorrinho numa casa do lago norte, ouvir dele (meu pai): ‘cachorro é muito legal, mas também é problema’. eu escutava cada palavra dele com ouvidos atentos cujos canais conduziam a uma cabeça incapaz de expandir essa informação adequadamente. minha irmã disse algo ao efeito de ‘que horror, pai’. eu mesmo teria gostado de uma explicação mais detalhada, mas minha timidez e propensão ao silêncio, assim como sua versão meio miniaturizada de hoje em dia, não distinguia parentes ou amigos próximos, e então a vontade permaneceu uma vontade.

nos primeiros dias dele em nossa casa, conforme fora combinado nas negociações, eu acordava em algum horário bizarro que hoje em dia é o de ir dormir para ferver a ração dele em água, como a veterinária de quem o pegamos recomendou. pela repetição, extraordinariedade e significância do ritual, as memórias sensoriais sobrevivem vívidas, resgatáveis a comando: a cozinha silenciosa, a casa escura, a panelinha de cabo marrom, o cheiro da ração, a textura da ração, a temperatura da ração e o aguardo por seu declínio; o cheiro de cãozinho bebê cuja ativação do instinto materno se provava interespécies e sem discriminação de gênero. não só isso, mas o focinho curto, os olhos inocentes, as orelhas macias, a voz de sopranino – todos os sentidos (menos um) bombardeados por programas muito pouco sutis de estímulo ao amor. ao sair de casa e ouvi-lo chorar minha ausência, meu coração descobria um tipo todo novo de quebra.

construir uma relação complexa com um cachorro é um processo curioso, mas, sendo boas pessoas, foi isso que eu e todos de casa fizemos. quanto a mim especificamente, ocorria uma bilateralidade esquisita. nos dias (meses/anos) em que era formada a base dessa relação, se existia uma hierarquia clara, ela era basicamente funcional: eu que possibilitava água, comida, passeios, mas este era um poder fundamental que eu não condicionava a nada. na verdade, eu o via como um igual, o que detrai da minha imagem como humano e ser social – nada de novo aí –, mas, com alguma bondade, diz algo positivo sobre minha capacidade de participação no universo. acho que algo parecido ocorria com minha irmã, e então acontece que, na hora de educá-lo, nós basicamente não o fizemos. deixamos a personalidade básica dele lidar sozinha com tudo em volta, se acomodar às nossas, gerar seus próprios construtos. objetivamente um erro, claro, que gerou inconveniências a todos os envolvidos, mas, se ele é quem é hoje, quem sou eu pra julgar? enfim, fraterna não é um termo muito distante, ou talvez seja até perfeitamente preciso, para descrever a minha relação com ele.

ao longo disso e além, ocorreu um processo simbiótico no qual ele foi adquirindo traços da família, mais notavelmente os meus – talvez por ser o único homem da casa – e eu alguns dele, trejeitos e tudo. grande parte disso pode ser atribuído a coincidência, mas mesmo semelhanças físicas, incluindo propensões para enfermidades, são perceptíveis. dizem muito disso do cachorro parecer o dono, e eu sequer pensava nisso até um número de pessoas percebê-lo; e daí estavam lá, situações às quais ele reagia de maneiras que seriam difíceis de imaginar razões se não influência, posições de deitar que eu comecei a achar confortáveis por vê-lo tão confortável nelas. já passei tantas horas acumuladas olhando seu olhar incrivelmente expressivo (e engraçado) que é contra-intuitivo supor que isso não faça diferença significativa na minha maneira de existir. mesmo desconsiderando as diferenças dos aparatos cognitivos/comportamentais*, as semelhanças imediatas são muitas e também o são paralelos análogos bem traçáveis, o que é impressionante, pois você há de concordar comigo que ele é um cachorro.

e pior que é, mesmo. às vezes eu fico olhando para ele, afagando suas costas e costelas, pensando coisas como ‘você é um cachorro, tem um cachorro na minha casa, um ser de toda outra espécie, e você está olhando para mim. você está aqui comigo há muitos anos’ etc, tentando extrair alguma espécie de compreensão que nunca vem inteiramente. e daí minha atenção de vez em quando passa para números: que em nenhuma vez que eu cheguei em casa ele não me fez uma festa**, que é uma estimativa muito segura de que em nenhum dia passado minimamente em casa ele não me fez sorrir pelo menos três vezes, que o número de apelidos pelos quais o chamei e chamo provavelmente já se empilham para as altas centenas. quantos ele teria para mim no análogo canino mais próximo traduzido e convertido pra pessoas?

é impossível quantificar o tanto que ele mudou quem eu sou e o curso geral da minha vida, assim como o é qualquer evento de qualquer dimensão em qualquer momento, todos por mero acaso se salvando de serem perdidos e ramificados a cada instante no sempre exponencialmente renovado infinito mundo das possibilidades que não vieram a ser. mas ignorando os efeitos borboletas e tudo, há uma certeza que foi um impacto direto gigantesco***. as direções são desconhecidas. e ele é esse coisinho pequeno e marrom, singelo e salsicho, mais frágil que eu, já de patas e focinho esbranquiçantes.

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*que se provam negligíveis em alguns poucos pontos, aliás

**num dia útil médio, são umas sete: ao acordar, ao chegar do trabalho, ao sair do banho, duas ao vestir os chinelos para passear, umas duas miscelânea (ao sair do quarto depois de ficar um tempinho com a porta fechada, por exemplo)

***por exemplo, só nisso aí dos sorrisos já rola de imaginar desencadeamentos só aplicando uma neuroquímica de superinteressante.
@10 months ago with 6 notes

re: último post (eu sou muito ingênuo)

onde é esse estacionamento?

com ctz é ponto de encontro gay’




claro, né. que burro.
@1 year ago with 2 notes

Encounter

li pela primeira vez sobre o milosz hoje, mais ou menos uma hora atrás, na página 136 de um livro agora marcado na página 138, e fiz nota mental de lembrar o nome desse cara pra procurar coisas. vlw.

isabelarcheryoufool:

We were riding through frozen fields in a wagon at dawn. A red wing rose in the darkness. And suddenly a hare ran across the road. One of us pointed to it with his hand. That was long ago. Today neither of them is alive, Not the hare, nor the man who made the gesture. O my love, where are they, where are they going The flash of a hand, streak of movement, rustle of pebbles. I ask not out of sorrow, but in wonder.



                                                         Wilno, 1936
@1 year ago with 6 notes

(Source: michaelcrowe)

@1 year ago with 12 notes