neguinho adotou uma cã caolha (8)
(título alternativo: amo/sou toby)
foi em 1999, ano cuja menção é eternamente comprometida pela lembrança da música homônima do capital inicial, o que é logo compensado pelas lembranças de reportagens sobre o bug do milênio e pela época boa da mtv e pela libertadores do palmeiras e o casamento bêbado de ross&rachel, que finalmente minha mãe cedeu aos nossos pedidos provavelmente irritantes de ter um cachorro. ceder aos pedidos de crianças parece algo pouco sábio: mesmo hoje eu sequer sei exatamente por que queria um cachorro e tenho certeza que não tinha idéia do nível de responsabilidade necessário e o compromisso a longo prazo, a despeito de avisos múltiplos. lembro de, no carro do meu pai, antes de buscar o cachorrinho numa casa do lago norte, ouvir dele (meu pai): ‘cachorro é muito legal, mas também é problema’. eu escutava cada palavra dele com ouvidos atentos cujos canais conduziam a uma cabeça incapaz de expandir essa informação adequadamente. minha irmã disse algo ao efeito de ‘que horror, pai’. eu mesmo teria gostado de uma explicação mais detalhada, mas minha timidez e propensão ao silêncio, assim como sua versão meio miniaturizada de hoje em dia, não distinguia parentes ou amigos próximos, e então a vontade permaneceu uma vontade.
nos primeiros dias dele em nossa casa, conforme fora combinado nas negociações, eu acordava em algum horário bizarro que hoje em dia é o de ir dormir para ferver a ração dele em água, como a veterinária de quem o pegamos recomendou. pela repetição, extraordinariedade e significância do ritual, as memórias sensoriais sobrevivem vívidas, resgatáveis a comando: a cozinha silenciosa, a casa escura, a panelinha de cabo marrom, o cheiro da ração, a textura da ração, a temperatura da ração e o aguardo por seu declínio; o cheiro de cãozinho bebê cuja ativação do instinto materno se provava interespécies e sem discriminação de gênero. não só isso, mas o focinho curto, os olhos inocentes, as orelhas macias, a voz de sopranino – todos os sentidos (menos um) bombardeados por programas muito pouco sutis de estímulo ao amor. ao sair de casa e ouvi-lo chorar minha ausência, meu coração descobria um tipo todo novo de quebra.
construir uma relação complexa com um cachorro é um processo curioso, mas, sendo boas pessoas, foi isso que eu e todos de casa fizemos. quanto a mim especificamente, ocorria uma bilateralidade esquisita. nos dias (meses/anos) em que era formada a base dessa relação, se existia uma hierarquia clara, ela era basicamente funcional: eu que possibilitava água, comida, passeios, mas este era um poder fundamental que eu não condicionava a nada. na verdade, eu o via como um igual, o que detrai da minha imagem como humano e ser social – nada de novo aí –, mas, com alguma bondade, diz algo positivo sobre minha capacidade de participação no universo. acho que algo parecido ocorria com minha irmã, e então acontece que, na hora de educá-lo, nós basicamente não o fizemos. deixamos a personalidade básica dele lidar sozinha com tudo em volta, se acomodar às nossas, gerar seus próprios construtos. objetivamente um erro, claro, que gerou inconveniências a todos os envolvidos, mas, se ele é quem é hoje, quem sou eu pra julgar? enfim, fraterna não é um termo muito distante, ou talvez seja até perfeitamente preciso, para descrever a minha relação com ele.
ao longo disso e além, ocorreu um processo simbiótico no qual ele foi adquirindo traços da família, mais notavelmente os meus – talvez por ser o único homem da casa – e eu alguns dele, trejeitos e tudo. grande parte disso pode ser atribuído a coincidência, mas mesmo semelhanças físicas, incluindo propensões para enfermidades, são perceptíveis. dizem muito disso do cachorro parecer o dono, e eu sequer pensava nisso até um número de pessoas percebê-lo; e daí estavam lá, situações às quais ele reagia de maneiras que seriam difíceis de imaginar razões se não influência, posições de deitar que eu comecei a achar confortáveis por vê-lo tão confortável nelas. já passei tantas horas acumuladas olhando seu olhar incrivelmente expressivo (e engraçado) que é contra-intuitivo supor que isso não faça diferença significativa na minha maneira de existir. mesmo desconsiderando as diferenças dos aparatos cognitivos/comportamentais*, as semelhanças imediatas são muitas e também o são paralelos análogos bem traçáveis, o que é impressionante, pois você há de concordar comigo que ele é um cachorro.
e pior que é, mesmo. às vezes eu fico olhando para ele, afagando suas costas e costelas, pensando coisas como ‘você é um cachorro, tem um cachorro na minha casa, um ser de toda outra espécie, e você está olhando para mim. você está aqui comigo há muitos anos’ etc, tentando extrair alguma espécie de compreensão que nunca vem inteiramente. e daí minha atenção de vez em quando passa para números: que em nenhuma vez que eu cheguei em casa ele não me fez uma festa**, que é uma estimativa muito segura de que em nenhum dia passado minimamente em casa ele não me fez sorrir pelo menos três vezes, que o número de apelidos pelos quais o chamei e chamo provavelmente já se empilham para as altas centenas. quantos ele teria para mim no análogo canino mais próximo traduzido e convertido pra pessoas?
é impossível quantificar o tanto que ele mudou quem eu sou e o curso geral da minha vida, assim como o é qualquer evento de qualquer dimensão em qualquer momento, todos por mero acaso se salvando de serem perdidos e ramificados a cada instante no sempre exponencialmente renovado infinito mundo das possibilidades que não vieram a ser. mas ignorando os efeitos borboletas e tudo, há uma certeza que foi um impacto direto gigantesco***. as direções são desconhecidas. e ele é esse coisinho pequeno e marrom, singelo e salsicho, mais frágil que eu, já de patas e focinho esbranquiçantes.
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*que se provam negligíveis em alguns poucos pontos, aliás
**num dia útil médio, são umas sete: ao acordar, ao chegar do trabalho, ao sair do banho, duas ao vestir os chinelos para passear, umas duas miscelânea (ao sair do quarto depois de ficar um tempinho com a porta fechada, por exemplo)
‘onde é esse estacionamento?
li pela primeira vez sobre o milosz hoje, mais ou menos uma hora atrás, na página 136 de um livro agora marcado na página 138, e fiz nota mental de lembrar o nome desse cara pra procurar coisas. vlw.
We were riding through frozen fields in a wagon at dawn. A red wing rose in the darkness. And suddenly a hare ran across the road. One of us pointed to it with his hand. That was long ago. Today neither of them is alive, Not the hare, nor the man who made the gesture. O my love, where are they, where are they going The flash of a hand, streak of movement, rustle of pebbles. I ask not out of sorrow, but in wonder.@1 year ago with 6 notesWilno, 1936