re: último post (eu sou muito ingênuo)

onde é esse estacionamento?

com ctz é ponto de encontro gay’




claro, né. que burro.
havia acabado de tocar violão por quinze minutos na praça das fontes, onde, com alguma distância, me faziam companhia dois casais (um deles fazendo piquenique) e um senhor lendo um livro. começou a trovejar, o que ignorei por um tempo, mas logo então a chuviscar  (de maneira bem gradual, nada a reclamar). voltei para o carro e passeei pela rua do parque, com graus de chuva radicalmente diferentes em cada conjunção de deslocamento tempo-espaço.



agora era segunda-feira, tipo 14h40. na região do estacionamento seis – outro lado da rua do gibão, onde ficava o saudoso tribal park e onde agora rola uma arquibancada sem propósito e, mais a frente, um grande parquinho de areia abstrato – parei o carro para estudar violão. no estacionamento, logo à minha frente, estacionou também outro carro, um kia soul preto, cujo dono se demorou um pouco para sair e, tendo feito, ficou andando de um lado para o outro, olhando para o chão como alguém (eu, por exemplo, às vezes) que quer parecer com algum propósito quando não há. lá também outros poucos carros, todos estranhamente juntos em vagas imediatamente vizinhas num estacionamento tão amplo e sem nenhum ponto de atividade identificável.



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kia soul, meu carro, outros carros



violão em uma mão e skate na outra (de certa forma pelo saudosismo do antigo skate park, mas sobretudo por se tratar de uma arma branca poderosa (na minha cabeça, imbatível senão por armas de fogo)), andei um pouco pela região procurando algum lugar agradável e com cobertura suficiente para proteger o violão da chuva minúscula em intensidade e densidade e dimensão das gotas. escolhi um banquinho de quatro banquinhos em volta de uma mesinha, perto de uma churrasqueira, sob um dossel de pinheiros (que, por ter folhas quase não-folhas, sequer servia ao propósito de cobertura, mas ao menos era bem bonito). retirei o violão do estojo, que serviu como apoio de pé, e comecei a tocar uma música inacabada minha antes de partir para coisas sérias.



antes dela terminar (o que significa menos de dois minutos depois), o rapaz do estacionamento, de vestimentas e fisionomia que não me comunicavam absolutamente nada, veio em minha direção com o distanciamento mínimo para que houvesse a possibilidade dele não estar vindo a mim. ele passa minha mesa e se senta em outra (em cima da mesa) no mesmo complexo que eu, alguns metros de distância, de novo o mínimo necessário para não ser conclusivo que eu tenho algo a ver com qualquer coisa. no meu raio de visão (enorme, fora a diferença da miopia dos meus olhos e da correção dos óculos), ninguém mais à vista, e um sem-fim de possibilidades de assentos (inclusive outros complexos de mesa e churrasqueira) para quem quer só sentar e ficar parado, como ele fazia.



antes de tomar qualquer conclusão, considerei que era início de tarde numa segunda-feira, e o que haveria de ser aquele lugar recluso senão um ponto de encontro de gente maluca e / ou em busca de experiências espirituais edificantes? eu sei uma coisa ou duas sobre parecer completamente inexplicável para as outras pessoas em algumas situações, e daí presumi que, até segunda ordem, ele estava lá para, timidamente, ouvir minha música, que realmente soava bonita naquele contexto.



essa música não tem fim, então eu repetia sua execução inteira, já que estava finalmente me soando bem e eu poderia terminá-la, talvez (este rascunho vem se engessando tem quase um ano). antes dela chegar ao seu fim novamente, vejo, de longe, outro homem vindo na minha (nossa) direção geral, também meio errático, parando para analisar rapidamente coisas improváveis (árvore, estacionamento, bebedouro da caesb). já considerando alguma possibilidade de emboscada improvável, de uma ação conjunta criminosa e brutal dos dois homens, minha primeira reação foi emendar a minha música, que é suave e bonitinha, em acordes extremamente dissonantes e gestos bruscos. rasgueados repentinos em acordes cheios de nonas menores, cromatismos com eles, puxadas e crescendos acompanhados de movimentos corporais expressivos que eu esperava, de alguma forma, que me fizessem pagar de maluco e fizessem os dois criminosos, se fossem, pensarem duas vezes antes de se meterem comigo. uma solução muito questionável ao dilema de não parecer paranóico e desconfiado demais, ofendendo principalmente o primeiro cara (quem pára o carro em um lugar, caminha um tanto razoável e só toca por uns sete minutos e vaza?) e, ao mesmo tempo, fazer algo minimamente a respeito sobre a possibilidade de sofrer um ataque brutal. falhando terrivelmente no segundo quesito, eu concedo, mas o primeiro é de uma importância desproporcional para mim, como todos que me conhecem hão de saber. não sei se faria diferente.



conforme o segundo elemento, também indecifrável visualmente (para mim), se aproximava, e minha música caminhava rapidamente para vanguardas ainda mais recentes, a chuva deu uma leve engrossada. talvez imperceptível para quem não estivesse com um objeto de madeira que não pudesse tomar chuva, mas eu estava com dois e tinha boa razão para querer sair de lá. legitimado, sem trair nada. então, tentando não parecer apressado, guardei o violão no estojo e carreguei-o com a mão esquerda para otimizar um possível manejo violento do skate com a direita (com um rodopio, como uma espada? como um aríete? eu saberia quando a hora chegasse). fiz um barulho, algo como um pigarro ou um grunhido, que em análise posterior vejo que era para mostrar que eu estava no comando sonoro do lugar, e andei, sem desviar eventuais encontros oculares com o segundo rapaz quando nos semi-cruzamos. cheguei aliviado no carro, vendo que aquele aglomerado de carros todos contavam com seus motoristas dentro deles, quase todos de camisa social e gravata, sozinhos, sem interagir um com o outro. tudo muito estranho.



saindo do estacionamento, pude ver de longe o rapaz que sentava na mesa. ele estava agora acompanhado por outro, que, por conta da minha ausência de atenção e memória visual, não sei dizer se é o mesmo que vinha em nossa direção. na hora imaginei que havia, então, feito bem em sair de lá, mas depois percebi que, por ter olhado apenas rapidamente, como uma fotografia, a interação dos dois poderia ser de qualquer natureza. algo tranquilo como uma venda de drogas, um pedido de cigarros, um maluco sociável puxando papo. ou ainda, mais ominosamente, uma violência a qual alguém armado com um skate poderia, estando ao redor, evitar. o rapaz tinha um carro bem mais caro que o meu, e presumidamente mais a perder materialmente. ou então dois amigos que marcaram um passeio no parque, como eu sem dúvida adoraria fazer com alguém. se eu pudesse entender o que aconteceu de fato, quem era cada um dos dois (possivelmente três) personagens, de onde eles vinham e por quê, e o que pensavam da vida de forma geral, e que diabos aquela galera vestida para trabalhar fazia lá, talvez eu pudesse extrair um significado daquilo tudo, mas não faço idéia e nem mesmo o que eu fazia lá era tão justificado assim. e então, todos os elementos em aberto, a experiência toda abstrata e onírica que nem aquele parquinho raramente ocupado. um vortex de surrealismo dos muitos que se encontra em brasília com muito pouco esforço. de lá, fui para a aliança francesa pela primeira vez, onde encontrei um amigo, li na biblioteca por uma hora, pessoas falaram francês comigo, vi uma cena de sexo não-explícito na televisão da recepção e informei a um rapaz ignorado pela recepcionista onde era a lanchonete.

Encounter

li pela primeira vez sobre o milosz hoje, mais ou menos uma hora atrás, na página 136 de um livro agora marcado na página 138, e fiz nota mental de lembrar o nome desse cara pra procurar coisas. vlw.

isabelarcheryoufool:

We were riding through frozen fields in a wagon at dawn. A red wing rose in the darkness. And suddenly a hare ran across the road. One of us pointed to it with his hand. That was long ago. Today neither of them is alive, Not the hare, nor the man who made the gesture. O my love, where are they, where are they going The flash of a hand, streak of movement, rustle of pebbles. I ask not out of sorrow, but in wonder.



                                                         Wilno, 1936

(Source: michaelcrowe)

Played 8 times [Flash 9 is required to listen to audio.]

música da banda que tínhamos eu, irmã e filipe.

um post não-compreensivo, coisas avulsas. não tenho mais blog, daí vai aqui.

não tem muita motivação, faz tempo que não mantenho um blog. acho que tem a ver com umas coisas que relembrei ultimamente, e a parte relacionada é meio resultado do meu ritual pré-sono, que é assistir a house, simpsons, friends, 30 rock, scrubs (não todos). é legal porque tenho um ritual pré-sono que funciona, mas o problema é que ele é condicionado ao horário em que passam essas coisas aí, o que torna o negócio meio inócuo e até piora caso eu precise dormir mais cedo que três, quatro (o que não é o caso agora graças à greve, mas ainda assim às vezes rola de ter que ver a abertura do pregão às 10h).

primeiro: sobre humor. mais especificamente, alguns formatos de piadas (a lista também não é abrangente) dessas sitcoms aí. mas não quero passar julgamento em nenhum deles, é tão-somente uma listagem, uma lembrança da existência deles. vendo qualquer coisa aí é engraçado analisar o mecanismo que já deve imagino, ser completamete sistematizado por quem escreve essas coisas.

um exemplo, o caso mais pungente de super-usagem, é um formato de piada de the nanny, usado em quase todo episódio, que consiste em falar algo sobre si e logo em seguinte desprová-lo com uma atitude. tão freqüente que posso listar até um contexto que foi empregado extensivamente: a fran falando que é uma dama, ou que tem classe, ou que foi bem educada, essas coisas, e logo depois coçando a bunda, falando ‘ooh is that shrimp?’ e enchendo as mãos e as bocas. mesmo aos 12 isso era facilmente identificável.

um mais geral que, em estrutura, é mais ou menos semelhante, é aquele de parecer que está sugerindo ou se remetendo a algo, e quando uma outra pessoa assim o entende e fala desse algo a primeira fica confusa, já que não era o caso. pode ser até divido em subtipos, mas não precisa (nada precisa). rola aquela vez que a phoebe toca pra crianças numa biblioteca suas músicas impróprias e, questionada sobre a possibilidade de utilizar um repertório mais clássico e com temas mais amenos, ela diz algo como ‘do you want me to be like a big purple dinosaur?’ e o rapaz diz ‘i’m not saying you have to be barney’ e ela ‘who’s barney?’ (questão de aula de português: onde reside o humor?). ainda, um exemplo um pouco diferente e não específico (já que não consigo pensar em nenhum) é o seguinte: o cenário, presente ou em conversa, engloba duas realidades - a realidade em si e a específica do momento. e então um dos personagens propõe uma ação que é coerente e normal em uma delas e absurda/extrema em outra, no que todos os interlocutores entendem se tratar da primeira, mas na verdade é a segunda (geralmente o primeiro personagem nem tem consciência da outra). tenho certeza que já vi isso muitas vezes em simpsons, mas enfim: algo como (exemplo ruim (desculpa pelo tom apologético (etc))) um grupo de amigos planejando um jogo de paintball, e chega um outro (chamemos de glen) e pega a conversa em ‘devemos nos esconder atrás do feno e mirar pra atirar no braço esquerdo do brandon’ e daí o glen comenta ‘é uma boa estratégia, mas acho que é melhor se o tommy e o andrew o cerquem um de cada lado, distraindo, e daí ele se distrai e eu posso dar um tiro no pescoço dele’ e então um deles comenta, sendo filmado exclusivamente, ‘uau, glen! não sabia que você era tão cruel no paintball’ e daí corta pra uma imagem só do glen, que diz ‘paintball?’ sacando de um estojo um revólver de verdade.

há o humor atemporal das placas dos simpsons num mundo onde todas as fachadas tem não só o nome do lugar, mas também um slogan bem sincero. aqui sim eu estou fazendo um julgamento, e o veredicto é a perfeição.

há o humor de seinfeld, que tanto influenciou tantos de nós, que consiste em dissecar e expandir e analisar elementos pequenos, desimportantes, e conferir a eles importância (embora não seja uma ironia precisa, ela não está perdida em mim), proferindo sentenças e julgamentos sobre eles como verdades absolutas e irreversíveis, dando nomes a cada coisinha dessa coisinha.

outra coisa é uma música do something corporate (banda de pop-punk) chamada konstantine (o assunto mudou). é uma música de quase dez minutos que, em minha época (2001/2), fazia muitos de nós (não eu, não tanto) explodirem em emoção, em redenção a algo lindo e enorme, transcedental. a letra é ruinzinha, assim, longa e cheia de frases de efeito daquelas que infestavam nossas assinaturas no fórum do ataris (mais sobre eles mais pra frente, por que não?). a música é lenta e levada por um piano que, embora piano, toca um padrão melódico repetitivo com uma progressão de acordes bem comum, além da voz chatinha que caracteriza e hoje em dia pra mim (então não) indistingue a maioria dos vocalistas dessas bandas aí. ou seja, não é de todo não-pop-punk, não foge à cultura, nós podíamos ouvi-la como sendo parte de nosso universo e não como uma música do elton john. mas fico pensando qual é o grande apelo dela: será que basta mesmo algo ser longo pra ser classificado como épico? certamente facilita na maioria dos casos; por exemplo, the decline do nofx, que é uma música (e um álbum) belíssima. o que o que falta a muitas músicas para serem alçadas a musicões que todos acham profundas é ambição, mesmo, de passar a marca dos seis, dos dez minutos esse post, por exemplo, vai ter um pessoal que vai gostar. é complicado isso aí de concisão. muitos outros exemplos, né, oh, comely, champagne supernova, paranoid android. konstantine, lá pros oito minutos, tem seu pico de emoção quando se repete umas sete ou oito vezes ‘did you know i miss you?’, pra depois subir um pouco mais toda pomposa e cair e terminar lentinha. isso de repetir coisas também tem bastante força - por exemplo, o final de a gentleman caller do cursive, que é bonitão, repetindo ‘doo-doo-doo, the worst is over’. mas assim, não me leve a mal, eu ouço konstantine agora e acho legal, impossível não. vejo até aqui pelos related videos no youtube que foi usada na trilha sonora de grey’s anatomy, que engraçado.

sobre ataris, cara, às vezes é muito juvenil. o refrão de the last song i will ever write about a girl:

‘why do i never seem to learn / that love is wrong and girls are fucking evil! / i guess i’ll never figure out / what womankind is all about 

(para ouvir a entonação sincera do kris roe, assim como ficar verdadeiramente triste lendo o último comentário da página e ser lembrado da profundidade que atingem comentários do youtube, 0:35 - 0:56: http://www.youtube.com/watch?v=eida-YWXbZk )

sério mesmo, mano? girls are fucking evil? mesmo aos 12 essa molecagem também era facilmente identificável.

o que me atraía neles não era tanto isso, era mais músicas como looking back on today, summer wind was always our song, que falavam de coisas que eu desejava e imaginava que jamais teria (além de alguns riffs irados, umas bateras). mas isso aí não vale a pena expandir. de imortal tem o final instrumental de your boyfriend sucks com aquele diálogo de a bronx tale do teste da porta.

não entendo também por que respeito lagwagon liricamente tanto mais assim. eles tinham lá suas coisas aí, ‘i hate my friends’. bom mesmo é o blake schwarzenbach, irretocável.

ainda sobre essas bandas mas um pouco menos, ontem eu vestia minha camiseta do weakerthans e fui questionado se a banda era boa, o que achei um bocado engraçado porque se assume que se assume que essa é minha opinião, dado minha opção por vestir algo que a estampe. mas hesitei porque de fato não sei se é, e logo aí me perguntam isso: que picles. mas penso melhor e digo que é, sim, left and leaving é uma música bonita em seu escopo, como outras deles. falando no quê, eu sou incapaz de desgostar completamente de uma música, ou de qualquer coisa que não seja malvada. eu tenho uma tolerância enorme para escopos, o que me coloca numa situação engraçada em se tratando de demonstração de discernimento nesse mundo aí em que relações sociais se baseiam em um lupe infinito de que o que é efetivamente certo gostar, e que o não gostar disso é o novo gostar disso e assim indefinidamente e tudo se acumula e o universo se expande tanto que o próprio olho humano não consegue vê-lo. 

falando em ‘próprio’, que é uma palavra que gosto muito de usar errado, talvez ano passado achei um gibi antigo com uma história do piteco que eu já deveria ter lido certamente mais de vinte vezes na minha infância. essa história, como muitas e muitas e muitas (isso rola muito com gibis da turma da mônica, histórias iguais reescritas), mostrava que nem sempre é bom ser maior, porque o piteco só consegue escapar de bichos grandes ao se esconder em cavernas nas quais eles não entram etc. e ao fim, invariavelmente, a situação se inverte e ele tenta caçar um lagarto e não consegue porque é maior. enfim, o que quero dizer é que rola um trecho onde ele tenta fugir de um dinossauro e passa por uma daquelas tão mauricescas pontes que consistem em um tronco de árvore. obviamente, dado o contexto e os precedentes históricos, o dinossauro tenta também passar mas acaba por quebrar o tronco e cair no abismo. mas daí o piteco, rindo e apontando para o fundo do abismo, faz um comentário cuja falta de sentido sempre me passou despercebida quando moleque (eu lia bem rápido bem cedo e até hoje tenho problemas por conta disso): ‘ha, ha! não agüentou o próprio peso!’. ‘o próprio peso’. vai ver meu gosto por esse tipo de humor tem a ver com isso aí, gosto tanto. 

left and leaving, ouvindo aqui, tem umas guitarras levemente fora do tempo, meio mal tocadas (no bom sentido, o melhor). é meio baixo ter o seu gosto potencializado (ainda que pouco) por isso, né? o fato de que não tinha um produtor, um engenheiro reclamando dessas coisas (ou corrigindo na pós-produção) confere um ar de honestidade. olha esse mundão condicionando a cabecinha a tentar não ser enganada.

o palmeiras merece mais do que isso aí. sua grandeza sozinha não basta. volta pra casa, valdivia.

edit: que parada é essa de end fragment? nada a ver.